Desde criança, queria entender por que as pessoas adoeciam, como uma doença podia transformar a vida de uma família e o que poderia ser feito para ajudar alguém a ficar bem. Eu ainda não compreendia a dimensão dessa escolha, mas a vontade de cuidar já existia.
Com o tempo, a curiosidade virou propósito. Graduei-me em Medicina pela Universidade de Rio Verde, em Goiás, e descobri que, mais do que identificar doenças, queria compreender as pessoas por trás de cada diagnóstico.
Foi essa inquietação que me levou à Neurologia.
Em São Paulo, durante a residência médica no Hospital Santa Marcelina, encontrei uma especialidade que reunia investigação, complexidade e cuidado humano. O cérebro me fascinava: uma pequena alteração pode modificar movimentos, memórias, comportamentos e até a maneira como alguém percebe o mundo.
Entre tantos caminhos, um se tornou especialmente próximo de mim: as dores de cabeça.
Talvez porque, antes mesmo de aprender a tratá-las, eu já soubesse o que era senti-las.
Quem nunca enfrentou uma crise intensa pode imaginar que seja “apenas uma dor”. Mas quem convive com ela conhece os compromissos cancelados, os momentos perdidos e o medo da próxima crise.
Minha experiência pessoal nunca substituiu o conhecimento médico, mas mudou a maneira como escuto meus pacientes. Não conheço exatamente a dor de cada pessoa, mas sei o que é ter a rotina interrompida por ela.
Essa combinação de experiência e curiosidade me levou a aprofundar minha formação em Cefaleias no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HC-USP). Ali, ampliei meus conhecimentos para cuidar de pessoas que, muitas vezes, conviviam havia anos com dores incapacitantes.
Com os pacientes, aprendi uma das partes mais bonitas da Medicina: acompanhar alguém que volta a fazer planos, retoma uma viagem, trabalha sem medo ou aceita um convite antes recusado.
Porque tratar uma doença neurológica nem sempre significa apenas reduzir sintomas. Muitas vezes, significa devolver possibilidades.
Hoje, atuo na Neurologia Clínica, com dedicação especial às dores de cabeça. Também compartilho informação médica para além do consultório, pois acredito que compreender a própria doença faz parte do cuidado.
Quando olho para trás, percebo que aquela menina curiosa continua aqui. Continuo fazendo perguntas e acreditando que, antes de qualquer diagnóstico, existe uma pessoa com sonhos, medos e uma história que merece ser ouvida.
Minha trajetória segue sendo construída a cada estudo, desafio e paciente que confia em mim.
A Neurologia me ensinou que ninguém se resume a um diagnóstico. E minha história me ensinou que aquilo que não conseguimos enxergar também pode transformar uma vida inteira.
Dra. Nayara de Paula Guerreiro
Médica Neurologista | Fellowship em Cefaleias pela USP
CRM-SP 233494 | RQE 135460
Instagram: @NAYARA_GUERREIRO