Segundo álbum de Cleômenes Junior conecta a liberdade do jazz à profundidade espacial do dub e às pulsações da música brasileira e latino-americana
Após o lançamento do single duplo Radiola ft Mad Professor e Muvuka ft. Buguinha Dub e Jorginho do Trompete, o público poderá conferir nas plataformas de áudio a partir de sexta-feira, 04 de setembro, o segundo álbum do saxofonista, flautista, compositor e produtor musical Cleômenes Junior intitulado Brasa Jazz Dub, lançado pela Frase Records.
O álbum conecta a liberdade do jazz fusion à profundidade espacial do dub e às pulsações da música brasileira e latino-americana. Composto, arranjado e concebido por Cleômenes Junior — com exceção de duas faixas assinadas por Gilberto Oliveira — o trabalho nasce de uma visão artística integral, que abrange composição, produção, conceito e execução musical. A produção reúne uma equipe premiada com o Latin Grammy: Leo Bracht, Tuti Rodrigues e Duda Raupp (na faixa “Brisa”), além de Sofia Vidor. Além de instrumentista e compositor, Cleômenes assume a produção e a direção artística do projeto, coordenando as diferentes etapas de criação, gravação e finalização sonora. O álbum também conta com músicos como Gilberto Oliveira, Ariacne(Cuba), Ras Vicente, Mateus Albornoz, Fernando Catatau, Lucas Fê e outros convidados.
O repertório atravessa ritmos como samba, baião, maracatu e festejo peruano, incorporando arranjos de cordas e sopros, sintetizadores, improvisação e procedimentos ligados à música eletrônica e à cultura sound system. O groove funciona como eixo de todo o álbum. Mesmo nas faixas de maior densidade harmônica e orquestral, a música foi construída para preservar uma relação direta com o corpo, com a dança e com o impacto físico do som.
“No Brasa, o dub não aparece apenas como um gênero musical. Ele influencia a maneira como penso silêncio, repetição, profundidade e transformação. Minha imaginação composicional tende a adicionar camadas; o dub também me ensina a subtrair”, revela o artista.
Ao longo do disco, produção, arranjo e mixagem não aparecem apenas como etapas posteriores à composição. Esses elementos participam diretamente da dramaturgia das músicas, modificando texturas, dinâmicas, distâncias e percepções de espaço. “Não me interessa simplesmente colocar gêneros diferentes lado a lado. Procuro criar situações em que essas linguagens se transformem quando entram em contato. Quero que a música possa ser sentida antes de ser decodificada”, explica.
Ao longo de dez faixas, Brasa Jazz Dub constrói uma viagem em que a música brasileira encontra o jazz, o dub, a psicodelia e a música eletrônica, sempre atravessada pelo groove e por uma atmosfera cinematográfica. O disco começa com Vila Nova, parceria com Tuti Rodrigues, um samba de sonoridade futurista que transita entre a tradição do fundo de quintal, improvisações jazzísticas, texturas eletrônicas e dub. Em Brisa, com Duda Raupp e Gilberto Oliveira, o percurso se amplia: afrobeat, jazz fusion e funk se encontram em uma faixa dançante e psicodélica, que ganha dimensão orquestral com a entrada das cordas.
Com participações de Buguinha Dub e Jorginho do Trompete, Muvuka parte de elementos do festejo peruano e da bossa nova para construir uma paisagem em que jazz, dub, ritmos afro-brasileiros e orquestração se misturam, em uma das faixas mais cinematográficas do álbum. Cariño, com Ariacne Trujillo e Tuti Rodrigues, desloca a viagem para o universo latino, aproximando o bolero cubano e o montuno da psicodelia e da profundidade sonora do dub. Na sequência, Iaia, novamente com Tuti Rodrigues, surge como um respiro: sax e berimbau colocam ancestralidade e futuro em fricção, como se a música oscilasse entre a floresta e o espaço.
Em Bicuíra, com Gilberto Oliveira, a percussão conduz uma atmosfera praiana, tranquila e misteriosa, atravessada por harmonias jazzísticas, sintetizadores e guitarras carregadas de efeitos. A tradição brasileira ganha outra direção em Madalena, também com Gilberto Oliveira, que aproxima baião, bebop e dub em uma faixa festiva, psicodélica e profundamente ligada à força rítmica nordestina.
Faixa que dá nome ao álbum, Brasa, com Bruno Silva, nasce com vocação para a pista: ritmos brasileiros, improvisação jazzística e uma atmosfera futurista desembocam em um reggae conduzido pela levada stepper beat. Já Radiola materializa o encontro de Cleômenes Junior com Mad Professor, colocando reggae, jazz e dub em diálogo direto. Delays, processamento analógico, improvisação e uma melancolia instrumental dão à faixa uma atmosfera ao mesmo tempo nostálgica e cinematográfica. Radiola, assim como Muvuka, integram o single duplo que lançou o projeto no mercado, e que tiveram lançamento internacional pela Ariwa Records, histórica gravadora britânica fundada pelo produtor e engenheiro de som Mad Professor, uma das principais referências mundiais do dub.
O percurso termina com Transcendental, parceria com Ras Vicente. Jazz fusion, psicodelia, elementos eletrônicos e uma ampla construção orquestral se acumulam progressivamente até levar o disco a seu ápice. Entre passado e futuro, tradição e invenção, pista e contemplação, Brasa Jazz Dub encerra sua viagem fazendo jus ao próprio nome: uma música que permanece acesa, expandindo calor, ritmo e movimento.
Integrante do grupo Trabalhos Espaciais Manuais, Cleômenes constrói em Brasa Jazz Dub uma obra de forte caráter cinematográfico, na qual reggae, jazz, música brasileira, improvisação, arranjos orquestrais e eletrônica coexistem dentro de uma mesma linguagem.
Lançamento nos palcos ocorre em Porto Alegre no dia 08 de setembro com show gratuito no Teatro Simões Lopes Neto
O álbum será apresentado ao vivo no espetáculo Cleômenes Junior apresenta Brasa Jazz Dub, no dia 8 de setembro, às 20h, no Teatro Simões Lopes Neto, no Multipalco Eva Sopher, em Porto Alegre.
Com entrada gratuita, o show contará com formação ampliada, projeções e arranjos desenvolvidos especialmente para o palco, transportando a atmosfera cinematográfica do disco para uma experiência sonora e visual. Cleômenes Junior vem acompanhado de Bruno Silva (trompete), Júlia Alves (flauta), Lorenzo Flach (guitarra), Lucas Fê (bateria), Mateus Albornoz (baixo), Ras Vicente (teclado), Sabryna Faria (trombone) e Tuti Rodrigues e Bruno Coelho (percussões). Os ingressos estarão disponíveis na bilheteria do teatro uma hora antes do espetáculo.
Cleômenes Junior
Cleômenes Junior é saxofonista, flautista, compositor, arranjador, produtor e diretor musical. Iniciou sua trajetória aos nove anos de idade, tocando saxofone na orquestra da igreja que frequentava, e é bacharel em Música Popular pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Em 2022, lançou seu primeiro álbum solo, Selva Urbana, pelo selo Escápula Records. O trabalho apresenta uma linguagem autoral construída a partir dos encontros entre jazz, reggae, dub, samba, maracatu, hip-hop e R&B.
Desde então, apresentou sua música em espaços e eventos como Theatro São Pedro, POA Jazz, Teatro do SESI, Rio Montreux Jazz Festival, Instituto Ling, Paralelo Festival e Noite dos Museus. Nessa trajetória, dividiu apresentações com artistas como Roberto Fonseca e Ida Nielsen.
Além da carreira solo, integra os grupos Trabalhos Espaciais Manuais e Kula Jazz e desenvolve projetos como Baile Jamaican Jazz, Agulha Jam e Sopro Rítmico. Ao longo de sua trajetória, também dividiu o palco com artistas como Danilo Caymmi, Mad Professor, Di Melo, Olinda Alessandrini, Gilberto Oliveira, Marietti Fialho, Glau Barros e Pâmela Amaro.
Sua pesquisa artística investiga os encontros entre música brasileira, improvisação, cultura sound system e produção contemporânea, compreendendo composição, arranjo, performance, produção e mixagem como partes de uma mesma linguagem musical.
FAIXA A FAIXA – BRASA JAZZ DUB
- Vila Nova ft Tuti Rodrigues
A faixa de abertura é um samba com sonoridade futurista. Tem pulso relaxado e uma tensão crescente no ar que se dissolve à medida que os sopros vão entrando de forma aditiva até chegar em um samba de raiz com uma pitadinha de dub. O solo de trombone entra em uma atmosfera de pista. A música pula de janela em janela em mudanças inesperadas, transicionando entre o tradicional e o futurista, com diversas ambiências e transições estéticas. Perguntas e respostas entre sopros acontecem em arranjo orquestral, com texturas modernas e antigas em diálogo. Até repousar em um samba de fundo de quintal.
- Brisa ft Duda Raupp, Gilberto Oliveira
Brisa viaja por diversas paisagens. Com um ar jazzístico e moderno começa passeando por um afrobeat em compasso ímpar quase imperceptível, pois o groove envolve desde as primeiras notas. A melodia carrega um mistério, mas o todo faz o corpo dançar. O solo de sax passeia pelo funk carioca em uma atmosfera psicodélica e dançante, e, entrega o solo para a guitarra fritar em um momento fusion a la Santana. A melodia retoma após os improvisos. O final da música é um vôo rasante com muita emoção com a orquestra de cordas entrando para o momento “especial da música” com a rearmonização da melodia.
- Muvuka ft Buguinha Dub, Jorginho do Trompete
Com atmosfera orquestral e mixagem dub, a faixa começa com o Cajon e as percussões em uma levada de maculelê, que lembra o funk carioca. O Rhodes contrapõe com uma levada de bossa nova. O groove cativa em poucos segundos. A melodia que o sax soprano traz vem em caráter a La Mingus. Após esta melodia as cordas trazem um pouco de drama junto a percussão, até atravessar um portal em que chegamos a parte cinemática da música. O Synth bass e o hammond carregam um ostinato hipnótico que lembra a atmosfera de uma pista de dança. O Synth soma-se em contraponto, e as cordas em pizzicato junto aos trompetes e trombones. O solo de sax soprano e trompete em trade (diálogo) com a bateria é acompanhado pelo fundo dramático que a orquestra de cordas pode proporcionar com a sustentação dos acordes. A música finaliza com as cordas apresentando o gran finale.
- Cariño ft Ariacne Trujillo
Um flerte orquestral com o bolero cubano, mas com sonoridade do presente. A sessão rítmica (piano, baixo acústico, percussão) é genuinamente latina e de alta performance. Os metais e as cordas nos levam pro universo do dub com toda sua profundidade e psicodelia. O solo de Ariacne soa verdadeiramente cubano. Com muito swing nos leva até um montuno. Nesta sessão o baile pega fogo com um solo de flautim em diálogo com o piano de Ariacne e contrapontos de sopro. A percussão e o baixo acústico dançam majestosamente em coesão com o todo. Em êxtase, a banda nos conduz de volta ao bolero, que tem esse diálogo entre passado, presente e futuro. A música encerra com nossa orquestra nos entregando um final digno de cinema.
- Iaia ft Tuti Rodrigues
Essa música soa como uma surpresa no contexto em que o álbum vem. Com berimbau carregado de efeitos, o sax canta em conjunto. Ancestral e futuro em fricção. Por ora na floresta, por ora no espaço.
- Bicuíra ft Gilberto Oliveira
A percussão nos carrega em um pulso tranquilo para um clima praiano. A atmosfera com o synth e os sopros nos trazem um ar um tanto futurista e misterioso. A guitarra vem carregada de efeitos dando profundidade para a música. A harmonia jazzística carrega emoção e curiosidade nos levando ao momento de solo do sax soprano. Esta sessão carrega um tanto de paixão e malandragem. Nos conta uma história de uma aventura vivida neste cenário. No retorno a melodia caminhamos de volta para casa, para o pulso tranquilo da percussão e para a esperança que a melodia da música carrega.
- Madalena ft Gilberto Oliveira
A música começa em tom de festa, com a zabumba, triângulo e flauta fazendo o corpo dançar. Quando a banda entra o tom de psicodelia do dub é dado. Passado e futuro em diálogo. A melodia que os sopros trazem carrega muito groove e tradição brasileira. O solo de flauta carrega um mistério, fraseado bebop em diálogo com o baião e a profundidade do dub. Após o solo voltamos para o passado em um momento de groove de percussão e flautas, celebrando a tradição rítmica nordestina. A banda volta com pressão dando aquele gás final nessa festa.
- Brasa ft. Bruno Silva
A banda já entra impondo o groove de pista, com rítmica e melodia genuinamente brasileira. A atmosfera é futurista e dançante. Após a melodia entra um solo de flauta seguido de um solo de trompete. A fluidez com que acontecem os improvisos jazzísticos, dançando com o todo, nos carrega em direção à segunda sessão da música, um reggae com a levada de stepper beat, precedido de uma ponte que nos dá a sensação de estar caminhando na gravidade da lua. Nessa sessão acontece um novo improviso de flauta, de atmosfera leve e dançante, carregada de efeitos. Após o solo, a música finaliza se dissolvendo em uma ponte eletrizante.
- Radiola ft Mad Professor
Um reggae em fusão com o jazz, e com o toque magistral de Mad Professor trazendo a verdade do Dub. A banda começa em uníssono para nos carregar até a melodia. Sax alto, Voz e trompete cantam a melancolia instrumental de Radiola. Com delays, efeitos e muito groove a música nos envolve. O synth, no solo, carrega uma acidez jazzística. O entorno tem o processamento analógico e característico de Mad Professor. Na segunda sessão da música temos um solo de sax soprano carregado de emoção e efeitos, com a coesão e conversação de uma faixa gravada ao vivo em estúdio, com os músicos pulsando junto. A narrativa melódica e estética da canção instrumental nos leva para o passado, com uma certa nostalgia. O gran finale tem um ar cinemático.
- Transcendental ft Ras Vicente
Um jazz fusion orquestral, psicodélico e cinemático. Começa com baixo acústico e efeitos de percussão trazendo um certo mistério para o encerramento do álbum. Piano entra seguido da orquestra de cordas. A bateria entra em sequência para somar-se ao mantra que está se formando com as diversas camadas que se repetem, cada uma ao seu lugar. A profundidade da música é grande, com texturas orquestrais e eletrônicas. A sonoridade transmite diversas emoções. O solo de synth é carregado de energia, começa com acompanhamento de bateria e baixo acústico até a chegada da orquestra de cordas que nos conduz para o ápice do solo, até cairmos em uma nova sessão carregada de esperança. O synth bass toma o lugar do baixo acústico e as cordas em ostinato vão crescendo junto da bateria, piano e percussão, para o solo de soprano chegar ao momento de explosão, de transcendência.
Fonte : Bruna Paulin – Assessoria de Flor em Flor